Os Clássicos no Nordeste Comigo

24 de junho de 2010

Por Andrea Mota

Depois de três cidades, seis apresentações, sendo que três de cada espetáculo ( Branca e Os Sonhos de Segismundo) Gostaria de compartilhar sentimentos e sensações desses momentos.

A primeira: João Pessoa cidade linda de pessoas tão acolhedoras, chegamos não só para o projeto Clássicos no Nordeste, estávamos também participando da 2ª Mostra de Teatro de Rua e isso nos possibilitou o encontro com outros grupos já conhecidos e queridos como Bagaceira e Clowns de Shakespeare, assim como conhecer o grupo Sertão Teatro.

Chegar foi um pouco estranho, não estávamos satisfeitos uns com os outros, pois alguns acertos não estavam sendo cumpridos durante a viajem. Felizmente antes de chegar sentamos a conversar e roupa lavada, arregaçamos as mangas e começamos a trabalhar, parte do grupo estava trabalhando nas oficinas alguns dias antes Luis (diretor) TECENDO PARTITURAS,Rafa (produtor e ator) ENERGIA E EXPRESSIVIDADE e Diana (atriz) CLOWN:CONSTRUÇÃO DE UM CORPO CÔMICO ATRAVÉS DA MUSICALIDADE. O restante do grupo foi depois, no entanto não se deixa de trabalhar por não ter viajado junto, sempre tem umas coisinhas pra resolver antes de ir. Para mim a Paraíba foi como uma estréia. Havíamos feito algumas viagens, mas, estar em cidades do Nordeste era muito importante.

Rafa,Dea e LuisRafa, eu e Luis

No primeiro dia fomos bem recebidos por Augusta (Sertão Teatro) e passeamos com três pessoas lindas no final da tarde: Galego e Isadora do Sertão Teatro e Eduardo professor da Universidade Federal da Paraíba. Fomos conhecer as praias, orla limpa e bem cuidada, a Ponta de Seixas, ponto mais próximo do Brasil com a nossa “Mama África” que um dia rompeu o cordão e nos deixou separar por um oceano.

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Tive tempo para ver a finalização das oficinas do Oco e é sempre bom observar de fora, o que já foi experimentado também no grupo, em outros atores, ver como trabalham os instrutores e perceber as reações dos participantes nessas vivências. Deu tempo de filmar um pouquinho.

O teatro, muito precário nos preocupou um pouco, será que iria suportar a iluminação de Segismundo? O palco estava praticamente ruindo na coxia, remendamos com placas de madeira e no final das contas, graças ao trabalho de muitos tudo deu certo. Destacando nesse momento da iluminação: Rita nossa iluminadora incansável que só para depois que tudo está pronto, Galego e Virgilio. As apresentações foram um sucesso, teatro cheio os dois dias.

Conversas, conhecer o Sertão Teatro grupo lindo, novo, cheio de vontade de trabalhar e pesquisar, encontrar os Clowns e o Bagaceira que por sinal comemora dez anos me faz feliz.Fiz a oficina do Bagaceira A CONSTRUÇÃO DO CORPO EXTRA COTIDIANO e percebi que no treino deles há muitas coisas parecidas, princípios, só que trabalhados de forma diferente, isso me fez perceber coisas do nosso próprio treinamento com mais clareza.

Entre os espetáculos que assisti na mostra destaco Esparrela do ator veterano Fernando Teixeira. Um cenário completamente despido, uma pequena alfaia um ator sem maquiagem ou figurinos elaborados, me parecia ali com a alma exposta ao narrar uma história com a pespectiva de um urubu. Enquanto ria refletia sobre a vida, sobre o teatro, via um homem ali, calejado por essa arte.

Com a companhia de Diana passei pelas ruas de João Pessoa e pude observar o povo, a cidade, o centro histórico com seus casarões e igrejas, a movimentação de vida em uma cidade verde, pude ver também, quando saí à noite que como Salvador, a cidade tem muitos problemas sociais.

No dia da demonstração de trabalho sala lotada, muitas perguntas de estudantes e professores, atores Nas perguntas que surgem de outros são afloradas perguntas que ainda são minhas, em oito anos de contato com a dança dos ventos, acreditando que é preciso cada vez mais mergulhar fundo nesse universo. Também percebo que algumas pessoas fazem perguntas que criticam por usarmos o treinamento que foi criado em outro grupo (ver Pontes dos ventos), sem saber a história, pois Rafael Magalhães é Fundador e criador também desse processo. Quanto a nós a demonstração não é uma aula, nem uma exibição de virtuosismo e sim o compartilhar do caminho que estamos traçando em nossas buscas.

Demonstração de trabalho do Bagaceira, compartilhando processos e experiências, a história deles, erros e acertos, acho esse grupo muito generoso e talentoso, para mim foi uma tarde super importante na Paraíba.

dea 3Eu, Diana, Cristina Streva(diretora de Ser Tão teatro) Devora e carla

A Segunda: Maceió: Viagem bem mais tranqüila, rápida. Recebidos Por Tiago o nosso querido músico (O Crucru) que foi o caminho todo dizendo que o hotel era horrível, somente Rita não acreditou e o hotel era realmente muito bonito imitando um navio. Até chegar no hotel o caminho não me animava muito, mas ao chegar a linda orla, na praia de Pajussara, meus olhos sorriam pelo que viam.

dea 4Nossa hospedagem bem merecida!

dea 5Praia de Pajuçara

No Hotel depois de algumas readaptações de quarto, descansamos e a noite me assustei com tanta fartura nos prantos do jantar sem resistir às tentações me entreguei as gulodices alagoanas, para depois dos pecados cometidos lembrar que preciso e muito emagrecer. Mas prato cheio parece ser costume dessas três cidades que visitamos diferente daqui, lá quando dizem come bem duas pessoas pode multiplicar rrsrs.

No segundo dia bem cedinho hora de ajustar e arrumar tudo, o teatro do Sesi estava localizado quinze minutos de caminhada a beira mar e fomos arrumar o camarim e passar as roupas como de costume, mas adiamos para a tarde porque teríamos que passar no meio da oficina de Diana e isso poderia atrapalhar. Fui então junto com Carla dar uma volta no centro histórico. Visitamos o Museu de Áudio Visual e me diverti demais ao ver os titios dos computadores de hoje e outros aparelhos que já foram alta tecnologia em seus tempos e hoje estão extintos ou evoluídos, verdadeiros dinossauros tecnológicos.

Achei a produção dessa etapa bem falha, Rafael tendo que resolver coisas que deveria ter encontrado prontas. Na demonstração de trabalho o local estava inadequado, sujo, barulhento. Trocamos por uma sala menor e mais limpa. A demonstração foi na Universidade Federal de Alagoas em uma sala de dança que ficou cheia de estudantes e professores, foi justamente nesta sala que tive contato com uma coisa que eu ainda não tinha tido contato em minha vida de atriz e me parece uma característica das pessoas da cidade: A tietagem; depois da demonstração pessoas pediam autógrafos, queriam tirar muitas fotos, autógrafos, observei divertida e com estranhamento.

O teatro parecia ser muito bom, mas tinha problemas de microfonia que quase faz a apresentação ser cancelada e isso causou um mal estar muito grande entre o grupo, Aliás Maceió não foi uma etapa tranqüila, diretor demonstrava sinais de cansaço, falta de paciência e mais do que ninguém, em toda sua humanidade, o diretor é a pessoa de maior influência no grupo, seu humor interfere diretamente no humor das outras pessoas.Acho que apesar do momento ser de trabalho forte é necessário afastar um pouco para recarregar as energias, contar até mil.

O Dois espetáculos aconteceram assim mesmo com os problemas de som com o teatro lotado. Tive uma grata surpresa depois da apresentação de Segismundo: Minha professora de dança foi assistir o espetáculo: Nadir Nóbrega: Bailarina, Professora da Universidade e quase doutora da qual só tenho boas lembranças, uma das culpadas de hoje esta pessoa que escreve ter essa vida feliz de almocreve artista.

Guardar os elementos ainda é para mim um momento de stress, pois é tudo muito rápido e as pessoas ainda teimam em não atender ao meu pedido de só levar a bagagem depois de eu ter conferido e liberado. Mas felizmente até agora está tudo certo. Principalmente por ter sempre junto Rafael e Mário que sabem organizar as coisas em seu devido lugar como ninguém.

Voltamos tensos e no intervalo da viagem aqui em Lauro de Freitas fizemos uma avaliação parcial, ufa! Melhorou cem por cento o clima, mesmo tendo coisas que só o tempo irá corrigir e adequar.

A Terceira: Teresina. Foi a cidade que mais gostei. Creio que por ser a mais diferente. O ruim era que o teatro ficava longe do hotel.

Chegamos arrumamos as coisas no teatro, á tarde fizemos a demonstração de trabalho em uma escola técnica de teatro, com muitos comentários que nos fazem refletir.

Sábado dia de apresentação de Segismundo, iríamos ensaiar de tarde então a manhã estava livre, fomos eu Diana, Mário e Tiago para o encontro dos rios Poti e Parnaíba.

Piaui 013Mario, Diana e Tiago.

Piaui 033Tiago, Diana e Eu ao longe

Piaui 043Piaui 045Cerâmica

Apresentação de Segismundo aconteceu tranqüila, domingo manhã livre, então saí com Mario e Thiago, fomos ao Museu de História do Piauí, onde fiquei sabendo da parte triste da história dos índios dizimados do estado, mas também pude ver móveis objetos e artefatos arqueológicos de milhões de anos.

Piaui 166Catedral

Piaui 168Árvore da Macrofauna

Apresentação de Branca foi tranqüila também. Arrumamos tudo, para voltar de madrugada.

Jantamos confraternização, voltamos. Cansados. Tudo isso acredito que amadureceu um pouco o grupo, os acertos, dificuldades, concessões, discussões, todos os rostos e paisagens que vimos alguma coisa devagarinho está mudando no grupo. Que venham outros projetos assim. Obrigada a todos que compartilharam dessa aventura.

As cidades: é necessário transitá-las e vivê-las para traduzi-las

24 de junho de 2010

Por Diana Ramos

Ainda hoje estive no Facebook, alimentando meus relacionamentos a distancia, ou seja, fazendo amigos para que, quem sabe num futuro, possamos intercambiar conhecimentos e visitar suas cidades sem preocupar-me com hospedagens. Acho que todo viajante almeja conhecer muito e pagar pouco. Infelizmente, este pensamento econômico se deve ainda a questões financeiras insuficientes para carimbar passaportes quando a vontade simplesmente vier. Fui surpreendida por um contato de um rapaz argentino me perguntando sobre o Brasil, e me dizia: que coisa é o Brasil não é, então tudo é festa e podemos ter diversão a qualquer hora. Fiquei em dúvida sobre o que responder, verdade ou mentira? Mas lhe disse apenas que era mais fruto da imaginação coletiva em relação ao Brasil do que a realidade, e que somos um país de pessoas sérias. E novamente o argentino me pergunta se estamos habituados a fazer sexo a três e freqüentar orgias, que é coisa normal para nós. Respirei fundo e novamente lhe respondi que não vivemos o carnaval a vida toda, o ano todo, diferente do que pensam por aí. Que temos muitos problemas sociais, mas também muita seriedade e, ao contrário do que pensam pelo mundo, não vivemos entre macacos nas florestas com roupas carnavalescas enfiadas em nossa dignidade (na verdade parei entre macacos nas florestas). E que só se conhece um país quando se vai até ele. Todo o resto são especulações. Ainda assim, saindo em defesa do Brasil, me vi numa situação ingênua, defender uma pátria que de si mesmo si ri e deixa que a vejam pelo pior que tem. Os méritos de um país se divulgam em proporções muito menores do que suas mazelas. Esta provocação argentina que impeliu a escrever sobre as cidades por onde estive recentemente (nós do Oco Teatro estivemos em viagens pelas cidades de João Pessoa – PB, Maceió – AL e Teresina – PI). Lembro-me de, na última viagem, em Teresina, ter me aventurado a pegar um ônibus e fazer um circular pela cidade de Timon, cidade maranhense em fronteira com Teresina e divididas pelo Rio Parnaíba. Neste breve tour de ônibus coletivo, pensei sobre a pouca atrativa cidade de Timon: há cidades para viver, há cidades para desejar viver e há cidades que apenas são parte do filme que gravamos na cabeça por tê-las passado sem compromisso nem vestígios. E se perguntarem se conheci estas cidades lhes direi que não, apenas estive entre elas pelo curtíssimo período de uma semana. É impossível dizer que se conhece uma cidade quando se está hospedado num belo hotel, num bairro central com pessoas à sua disposição para facilitar o trabalho da qual você está ali para fazer. Posso relatar aqui todo o prazer destas vivências, mas não posso descrever verdadeiramente estas cidades.              A minha impressão de viajante e artista me fez perceber as cidades de maneira mais sensível, o que não quer dizer que tenha verdades absolutas sobre seu povo ou cultura.

O mais impressionante sobre elas é que, depois de um tempo parece que os rostos se tornam conhecidos, como se encontrássemos em suas ruas, alguém de rosto familiar, talvez pela necessidade de sentir que somos acolhidos por aqueles do qual nunca vimos antes. As cidades têm sotaques confortáveis, gírias particulares, timbres característicos e vozes que, de ponta a ponta do país clamam pelas mesmas coisas: direitos, cultura, lazer, dignidade para seu povo e para seus artistas. Transitar pelo teatro feito nas cidades nos diz de que valor se dá a arte e àqueles que a fazem. A carência de leis de incentivo, editais, propostas governamentais e empresas privadas dispostas a patrocinar a cultura e especificamente o teatro ganha contornos muito parecidos em toda parte, me parece que ainda mais nos nossos pobres Estados nordestinos. A desigualdade social é latente e nos espera desde a rodoviária, aeroporto ou nas portas dos hotéis à pedida de cafés, almoços e jantas. E, de quem é a responsabilidade? Qual a função do artista e de seu teatro?

É preciso aprender a não subjugar o conhecimento presente nos outros que acreditamos que, por estarem em cidades em que a mídia não dá importância, situadas fora dos eixos televisivos ou de menos representatividade nas regiões altas dos pontos cardeais há mais ignorância ou, somos nós “os de fora” aqueles que trazem o novo. Ledo engano, o conhecimento produzido nestas cidades é muito particular e ao mesmo tempo universal, é preciso transitá-las e vivê-las para traduzi-las.

“No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos.” (José Saramago)

Viagens-Clássicos Teatrais no Nordeste

21 de junho de 2010

Por Carla Teixeira

Bem!!! Descrever essas passagens na vida é tão simples como vivê-las. E foi assim que eu me senti nesta viagem, por Paraíba, Alagoas e Piauí, juntamente com Oco Teatro pude reunir um misto de coisas nesta passagem pelo Nordeste como : O trabalho, conhecimento, cultura, esclarecimento, vivência, tristeza, alegria, mas sim paixão em viver aqueles momentos, como um toque de mágica, algumas coisas se dissipam e ficam  a experiência para uma vida toda.

A cada lugar que eu chegava, meus olhos brilhavam, e estava lá, com minha câmera registrando tudo. Como era importante para mim aquele momento e cada viagem. “Os trabalhos apresentados pelo Oco, os hotéis, as comidas, os lugares etc… Em João Pessoa, tudo foi tão caloroso, quantos encontros com bons grupos. E o Espetáculo Os Sonhos de Segismundo e Branca foram muito bem apresentados nos três Estados, apesar de alguns problemas técnicos com espaço cênico, som, etc.

Na minha opinião destaque “Os Sonhos de Segismundo” em Paraíba/João pessoa e “Branca” em Piauí/Teresina.

Quero agradecer a todos os meus companheiros do OcoTeatroLaboratório por esses momentos.

Impressões de um viajante

21 de junho de 2010

Por Tiago Chaves

Quando ainda estava apenas nos planos de se fazer as viagens eu estava bastante empolgado em poder sair da minha cidade e ir percorrer outros lugares observando as maneiras, os jeitos e a cultura de outros estados que nos são ligados pela região nordeste. Não sabia bem ao certo o que encontrar, que esperar. Por vezes pensava que seriam lugares menos desenvolvidos culturalmente – admito que era um pensamento preconceituoso e procurava logo dissipar essas idéias. Era preciso viver logo a experiência

O primeiro estado foi a Paraíba, na cidade de João Pessoa. Uma cidade que me tem algumas lembranças por ocasião de uma visita há quase 10 anos atrás. Chegamos para integrar o nosso projeto de circulação junto à Mostra de Grupo promovida pelo grupo Ser Tão Teatro. Passamos os primeiros três dias realizando oficinas. A receptividade era boa por parte dos participantes, que mostravam disponibilidade e boa técnica. As apresentações são marcadas pela falta de estrutura física. O lugar, apesar de ser bem interessante quanto espaço, não fornecia um teatro bem equipado e em boas condições – nada que não pudesse ser resolvido. Foram apresentações com um excelente publico, que interagia com o espetáculo.

Logo depois foram momentos quase livres de assistir espetáculos de grupos conhecidos nosso como o Bagaceira, do Ceará, e o Clowns de Shakespeare do Rio Grande do Norte. Fizemos uma demonstração de trabalho para uma platéia de mais ou menos cinqüenta pessoas; estudantes, artistas. Houve debate e discussão bem aproveitado. Voltamos para Salvador com essa etapa cumprida e com mais amigos na lista.

Rumamos para Maceió. Logo começamos a nos interar sobre as condições do teatro no estado de Alagoas. Ficamos localizados na orla da cidade, o que de certa forma nos colocou no limite entre trabalho e descanso, sem que um atrapalhasse o outro. A localização do teatro era perto do hotel. A impressão que eu tinha dos participantes das oficinas era de pessoas com vontade de participar, aprender – dando uma imagem de que a cidade não oferecia tanta formação técnica aos profissionais do local. Não tivemos oportunidade de ver qualquer mostra de trabalho de algum grupo local. Quando fomos fazer a demostração de trabalho, porém, pude sentir que a universidade tinha uma atuação interessante na formação da classe artística da cidade. Foi uma demonstração marcada pela mudança de sala por falta de condições – mas também por discussão de debate bem atuante.

O teatro do SESI, apesar de bem estruturado, não tinha os equipamentos adequados e a produção foi obrigada a alugar iluminação. Os dois espetáculo tiveram um público (A meu ver!) razoável. A apresentação de Segismundo foi bem empolgante e senti que rolava uma boa energia. A mesma sensação em Branca – já que nessa temporada eu fazia parte do coro cantando as músicas. O fato de ter de arrumar todo o material com pressa para viajar de madrugada foi um ponto que me deixou um pouco cansado.

O Piauí esperava com um sabor de saudade. Era uma viagem especial e espera por mim, que tenho no estado uma forte ligação, apesar de ser a primeira vez a visitá-lo. Não sabia bem ao certo o que esperar, mas esperava sabendo que nada podia derrubar a ligação antropológica que tenho com Teresina, já que minha mãe nasceu no Piauí. Mesmo indo pela primeira vez era como se retornasse a um lugar conhecido pelas lembranças contada pela minha mãe. Olhava o lugar e as pessoas procurando reconhecer traços que me ligavam e me levavam a estar ali. Chegamos no meio da noite de segunda-feira e na manhã de terça já estávamos em pé para começar a executar o projeto. O publico participante não foi tão participativo como nos outros estados. Não esperava tanto, nem tão pouco. Mas Piauí me surpreendeu pela estrutura cultural que a cidade oferece. Muito museu, muito centro de artesanato, muito lugar onde você pode observar uma arte – uma escultura ali, outro desenho aqui.

O teatro ficava numa parte afastada do centro – bem afasta – num bairro chamado Dirceu. A principio me senti incomodado por não estar bem localizado. Espera estar no centro da cidade onde o acesso seria mais fácil e pudesse estar no centro das atenções das atividades da cidade. Mas depois senti que a periferia merece também uma oportunidade de ver e ter acesso a um teatro de qualidade. Tá certo que não encheu. Tá certo que foi bem vazio. Mas se dentre as 10 pessoas que assistiram teve (talvez) 2 ou 3 pessoas do bairro que foram por que teve acesso fácil ao espetáculo, sem ter que se deslocar ao centro da cidade para poder assistir e participar de uma boa programação cultural – então viva!! Acho importante.

Antes teve a demonstração de trabalho. Um detalhe a parte. Foi uma demonstração marcada pelo cansaço, calor e energia. A Dança dos Objetos foi tão forte – uma improvisação marcada pela viagem sonora coletiva e pela jogo do corpo com o objeto. Minhas mãos doíam ao fim tamanha era a força e vontade em seguir livremente dentro da proposta – foi algo bem diferente do que estava realizando nas outras demonstrações – falando em termos de sensações.

Enfim, era hora de arrumar as malas e se preparar pra voltar

Além das experiências de ganhos, o projeto de circulação foi marcada pela experiência de perdas.

Na volta de João Pessoa recebi a noticia da morte do Poeta Damário Dacruz. Um vazio para quem na porta da geladeira tem um pôster com uma poesia dele, relembrando todo dia a beleza em apenas estar ali presente junta a pessoas tão queridas.

Quando voltamos de Maceió lemos a notícia do falecimento de Wilson Melo. Um mito pela simpatia e bom humor no teatro baiano. Participei algumas vezes de rodas de conversas e embriagues em que estava o grande Mestre - que ria e conversava comigo, me contando histórias e tomando toda a atenção da festa.

O Piauí foi uma viagem de reflexão e estudo. Fui lendo alguns textos para pesquisa de um trabalho. Ainda que não tenha levado como autor, o Mestre Saramago era sempre lembrado e discutido, rindo até em perceber o quanto ele nos coloca a prova dos seus questionamentos e certezas. E então o mestre nos deixa sós. Senti a sua morte como se sente a morte de um ente querido. Me resguardei na saudade de saber que a polêmica e genialidade está limitada pelo nascer e morrer do velho escritor. Não fui tão bom leitor de Saramago – Mas tenho na sua figura uma fonte de certeza da quebra de paradigmas e formas que vejo como necessárias ao meu mundo. Ao mundo em que estou atualmente.

Ao ler a notícia pela internet numa sexta-feira meio nublada, depois do choque falei em voz alta no escritório de meu pai – “Adeus José!”

Projeto Clássicos no Nordeste + Biscoitos da Gol

21 de junho de 2010

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Por Mario Cesar Alves

Fiquei muito feliz por este projeto,onde nos aproximou de grupos que fazem teatro por este mundo nordestino.A acolhida,o carinho,a atenção que nos foi dispensado deixou-nos completamente a vontade.Começamos a partir daquele instante um relacionamento verdadeiro com pessoas diferentes e iguais:Em todos os estados que nos apresentamos,recebemos um tratamento diferenciado e especial,os espetáculos vistos entre os grupos em JP,senti que ali estava selado o pacto da união nordestina de teatro.Ainda tive a belasupresa em receber um saboroso bolo de aniversario e presentes,”obrigado galera”nomais ganhamos muito com as viagens,que nos deu além de muitos amigos, também a oportunidade de conhecermos trabalhos de outros grupos que passam as mesmas dificuldades que passamos, já a produção foi,impecável, a alimentação, a hospedagem.As lembranças que compramos,os teatros,as belas cidades, os cachês,o povo acolhedor simpático, os biscoitos com suco da GOL e o grupo alcançando mais um grau de unidade,como a tendência é melhorar, estamos amadurecendo aos pouco”BRAVO”A experiência foi ilimitada pois estivemos em museus,praias,mercados de artesanatos,bons teatros e o prazer gostoso deste povo maravilhoso “NORDESTINOS”

Instrumentos da Arte

5 de junho de 2010

Por Luis Alberto Alonso

Podemos fazer teatro através das Artes Plásticas? ou Podemos fazer Artes Plásticas com os instrumentos do teatro? O que me diferencia de um artista plástico se eu sou capaz de construir no palco uma tela, uma instalação, uma escultura, uma gravura? Talvez me diferenciem os instrumentos ou o percurso que eu traço para chegar ao meu resultado? ou as formas que denominam, de maneira pre-estabelecida,  cada uma das artes? Várias são as perguntas assim como múltiplas as respostas. Mas o que sim fica claro para nós é que “As artes se parecem em seus princípios (…)” falava Decroux; só que não concordo com o mestre francês quando culmina a frase dizendo “(…) não em suas obras”. Podemos perceber através de um olhar despossuído de nomenclaturas que lhe foram cedidas às artes para seu frutífero estudo que todas as artes parecem, sim, na nossa contemporaneidade, umas com as outras, nos seus princípios e nas suas obras. Bastaria esse olhar se deixar levar mais pelos sentidos, do que pelas formas e pelas técnicas.

Da Vinci – Work in Progress

11 de maio de 2010

Por Luis Alberto Alonso.

Da Vinci Wok  in Progress foi uma Demonstração de Trabalho que se converteu numa intervenção performática criada pelo grupo Oco teatro Laboratorio, a qual parte da pesquisa da obra de arte de Leonardo Da Vinci, que junto a outras fontes inteletuais e de vivencias foram tecendo partituras com a técnica de silêncio orgânico. Cada ator selecionou uma tela de Da Vinci e a partir da sua seleção criou uma fábula –considerando o termo aristotélico- com principio, meio e fim, uma históia bem contada. Sobre essa historia foi feito um analise que levou finalmente a varias montagens onde cada ator era responável por cada uma delas. Desse trabalho surgiu a necessidade de costurar as partituras e operar em uma peformance de intervenção e de palco.

Work in Progress é a junção das experiências e universos de oito atores num processo de trabalho. É urgar no interior do Ator-Poeta, tirando dele suas essencias e conflitos e aquilo que ele tem vontade de expressar. Un ator pensa em Jesus Cristo quando outro sonha em ter asas para voar. Uma atriz se aferra à ilusão de um amor eterno, entanto outra clama, desde sua fenda crítica, mais justiça na sociedade que lhe tocou viver. Seres estranhos de negro e prata passeiam pelas ruas com guardachuvas gigantes, na procura de um não sabemos o que da vida, um quadro surreal no meio de um universo tecnócrata onde o ser humano tem-se coisificado.

Nossa Dramaturgia

10 de maio de 2010

Por Luis Alberto Alonso.

Texto é Tecido, e não é o texto escrito quem nos deve guiar na construção de um espetáculo e sim o texto que nasce da conjunção, elaboração e costura das relações que se denominam ações entre um ator e outro, o ator com seu corpo, o ator com a música, o ator com a iluminação, com os objetos, com o palco, com o público, com o verbo.  O ator deve criar a sua dança pessoal, pois as velhas fábulas explodirão. Precisamos criar uma nova estrutura para nos reinventar uma nova fábula no teatro.

Um desarm-ator de bombas

6 de março de 2010

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Por. Diana Ramos

Hoje tive a certeza de que não é fácil ser diretor de um grupo teatral, ou mesmo um grupo qualquer. É bem sabido que os grupos sociais são formados por pessoas de personalidades distintas, o que faz com que o enlace da convivência aconteça. Todo grupo tem o chato, o preguiçoso, o sem-noção, o pró-ativo, o criativo, o simpático,o propositivo, o harmonizador… seja que grupo for, os papéis aparecem bem divididos e assim o grupo se mantêm.

Ninguém é obrigado a suportar ninguém, no cotidiano a gente “fecha a cara” e vai embora, liquidando a tal pessoa do seu campo de vista, mas, num grupo, há objetivos comuns que fazem com que a cada manhã a gente acorde com alguma motivação diferente. No entanto, a figura do líder, naturalmente acontece dentro de um grupo ou já é pré-estabelecida, no caso o diretor de um grupo de teatro. Com o passar dos anos, ele, o diretor, conhece cada alma descompreendida de seu rebanho, sabe quem é cada um, porque não lhes avalia pelo aqui e agora, nem por sua produção artística apenas, pois sabe que o que sobe ao palco é o resultado de conflitos internos, vontades, angústias, experiências, carências, egos inflados ou massacrados, vidas, pessoas…o ator ou atriz. Mas quem ensina aos diretores a compreender almas? Alguns diretores aprendem outros não. É uma escola subjetiva. Acredito que existam atores ativos e passivos, e diretor precisa encontrar a medida certa de estímulo para que a criação aconteça. Num grupo teatral, onde a convivência é longa e intensa o diretor, ao que me parece, é também responsável pelo humor do coletivo, se está bravo todos se retraem ou devolvem igual braveza, se está feliz o grupo sorri feliz, se demonstra extremo interesse numa proposta de montagem o grupo está de corpo e alma com ele, se duvidoso o mesmo paira coletivamente no ar. Claro que isso não é uma regra, há grupos de todos os tipos, mas considero a figura do diretor fundamental na psicologia das relações internas. E se ele está desmotivado? Como fazer ressurgir o ânimo? É duro ser diretor, mas também, como o ator é uma condição ao qual nos propusemos é preciso ir até o fim. Esse desarmador de bombas ou desarm-ator é o diretor.

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Certo dia uma atriz acordou decidida a dar fim a sua condição, inquieta, angustiada, foi no caminho longo que percorria até chegar a sede do seu grupo pensando no discurso que faria ao seu diretor, disposta a jogar pro alto, dar prazos a suas participações, disposta a encarar a fúria ou desprezo coletivo ia despedir-se, mas cumprindo suas obrigações até o último prazo. Era uma bomba relógio soltando pequenas faíscas diárias, e lá, pronta para explodir e terminar tudo veio ele, o desarmator de atrizes em crise, e cortou o fio vermelho. Era como se tivesse lendo os pensamentos dela e antes que ela falasse vinha um argumento pacificador, e outros sucessivos desarmaram a bomba. Mas se ele não a conhecesse tão bem não poderia se antecipar a explosão. No fim das contas, ela voltou para casa com seu corpo bélico desmontado. Ao menos levará uns dias para que a bomba se reconstitua ou amanhã será outro ator-bomba a dar-lhe a urgência de mais uma missão de desarm-ator. Assim, esse aprendizado é totalmente particular, apenas um diretor que aprendeu a desarmar-se pode cortar o fio vermelho antes que tudo caia ao seu redor.

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One by One/A receita da Diana

17 de dezembro de 2009

PIC_0001A atriz Diana Ramos, me surpreendeu com esta meticulosa ordem das coisas que Oco Teatro Laboratório conseguiu fazer no ano 2009. E eu ciente de que a gente precisa trabalhar mais. Eta preguiça! É quase que uma receita para aqueles que não sabemos o que fazer durante o ano. É bom guardar essas lembranças administrativas da Diana.

Aí vai a receita para aqueles que queiram ter trabalho! E ela disse que ainda falta!. Viu!?


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Janeiro

Temporada de Branca. Sala do Coro TCA

Luis Alberto no Janeiro de Grandes Espetáculos em Recife.

Participação de Diana Ramos e Rafael Magalhães no show Pierrot e Colombina – Vânia Abreu e Marcelo Quintanilha.

Viagem de Luis Alberto para Festival de Teatro no Chile – “Santiago a Mil”.

Fevereiro

Temporada de Os Sonhos de Segismundo. Sala do Coro TCA.

Março

Viagem ao Peru. 23/03 a 02/04/2009

31/03 apresentação na Casa Yuyachkani .

Abril

Indicações do Prêmio Braskem: Melhor espetáculo “Os Sonhos de Segismundo” e Atriz Coadjuvante “Diana Ramos”.

Discutir Cidades Invisíveis. Ítalo Calvino

Discutir Leonardo Da Vinci.

Maio

Festival de Ipitanga. Apresentação de “Os Sonhos de Segismundo”.

Fim dos estudos Leonardo da Vinci

Estudos Charles Darwin

Estudos F. Nietzsche

Ajustes finais para o exercício de montagem dos textos criados a partir de imagens de da Vinci

Preparação para o trabalho prático

Viagem de Luis Alberto e Rafael Magalhães para o encontro da Ponte dos Ventos. Odin Teatret – Dinamarca.

25 de maio a 19 de junho (trabalho prático com a montagem dos textos dirigidos pelos atores/diretores)

Junho

Ajustes e ensaios das montagens resultantes das pesquisas com o texto de cada ator.

Julho

Mostra das cenas para Luis Alberto.

Agosto

Ensaios de Segismundo e Cenas experimentais.

Participação de Diana Ramos e Rafael Magalhães no Show Pierrot e Colombina. Teatro FECAP. SP.

Setembro

FILTE – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia.

Demonstração de trabalho no FILTE no Seminário de Poéticas e Políticas das Américas.

Reunião de avaliação FILTE.

Outubro

Festival Experimental FITEQ-G. Equador.

Viagem de Luis Alberto ao Festival Ibero-Americano de Teatro de Cádiz

Temporada Teatro Monet. Os sonhos de Segismundo.

Participação de Luis Alberto no encontro de diretores teatrais no XXIV Festival Ibero-americano de Teatro de Cádiz. Espanha.

Lançamento da Coleção Dramaturgia Latino-Americana. Vol. I Texto: Neva, de Guillermo Calderón. Fiac.

Novembro

Training

Dezembro

Training

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ESTUDOS E EXPERIMENTAÇÕES

Desde o início do ano já tínhamos as propostas de estudos para o decorrer do mesmo, os indicados para dissecá-los eram: Ítalo Calvino com a obra Cidades Invisíveis, Charles Darwin – vida e obra, Leonardo Da Vinci – vida e obra e Friedrich Nietzsche com Ecce Homo.

Sobre as Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, posso dizer do prazer que tive com a leitura, parecendo que a cada cidade era como se eu desvendasse junto com Marco Polo aquele lugar.

“Como historietas avulsas a qualquer enredo, elas vão se somando e tecendo paulatinamente um fio que atravessa todo o romance da primeira a última página: a fluidez de um mundo que se constitui através da audição, do odor, do paladar e de um olhar que não é o ver, mas o emergir na coisa, o mirar rosiano. Cada cidade porta uma revelação, mundos utópicos que são somente descortinados quando deitamos nosso olhar sobre ínfimos detalhes, à cata das ambigüidades. A descrição espacial da cidade envolvida nessa esfera de ambigüidade é representativa da condição humana, das oscilações pelas quais o homem passa.” (ciberliteratura.com.br)

As cidades invisíveis estavam dentro de mim, cada um delas trazia consigo uma rua por onde já estive no passado, lembranças ou sonhos. A leitura simples, poética e atraente nos inquietava a tentar desvendar os segredos das cidades e, nas discussões com o grupo era interessante ver como a “cidade” de cada um brotava de nossas lembranças e de nossas histórias. Eram elas:

1 “As cidades e o nome” – identidade e sentido de lugar; 2“As cidades e a memória” – a presença do sítio e a influência do passado; 3 “As cidades e o desejo” – a motivação inconsciente e a ação sobre a memória; 4 “As cidades e os símbolos” – a linguagem da subconsciência coletiva e a imagem da cidade; 5 “As cidades delgadas” – a busca pelo desprender da terra, a negação da imobilidade; 6 “As cidades e as trocas” – as relações entre os habitantes; 7 “As cidades e os olhos” – a visão individual e os engodos; 8 “As cidades e os mortos” – engessamento, ciclo, fim de ciclo; 9. “As cidades ocultas” – a natureza humana e sua dualidade; 10. “As cidades contínuas” – antropofagia, destruição do meio; 11. “As Cidades e o Céu” – o ideal de perfeição e o cosmos.

Sobre Charles Darwin era mais óbvio cair na teoria da evolução das espécies por seleção natural, e ver que os mais fortes perpetuam a espécie. No entanto ter Darwin como exemplo de um estudioso persistente. As discussões deram margem a contextos sócio-culturais de “seleção natural” ou “predisposição genética” para caráter e personalidade.

Leonardo da Vinci foi, até então, o mais apaixonante a ser estudado. Sua vida e obra me revelaram a idéia de “Homem Universal”, ou seja, alguém que transita pelo conhecimento profundo e diversamente. Fiz uma analogia ao trabalho do ator, necessitando dominar uma gama de possibilidades de atuações, transitando em funções e se munindo de um repertório de qualidades à disposição de suas criações. Dentre as várias ciências aprofundadas por Da Vinci, as invenções e as pinturas foram o recorte maior para nossas pesquisas, serviram de inspiração para nossa grande tarefa:

1) Cada ator deveria elaborar, a partir de uma obra de Da Vinci, uma história, livre de estilo, a partir da imagem.

2) A história deveria ser curta contendo a estrutura essencial: começo, meio e fim (independendo de ordem cronológica). Fizemos uma primeira leitura para o diretor e este foi dando encaminhamentos dramatúrgicos aos escritos. Depois fizemos o trabalho com acompanhamento individual para estruturar os contos. Em certo momento passamos a socializar as histórias no grupo buscando: conflito, personagens e funções dentro da trama, moral da história e erro trágico do personagem, caso houvesse.

3) Agora tínhamos a tarefa de encenar o que chamei de contos com o grupo, cada ator/diretor poderia usar quantos atores do grupo quisesse, mas não poderia estar em sua própria cena. Tivemos, antes da prática, que expor a proposta de encenação possível, o que nos levou a pensar a cena em sua amplitude. Para nós foi o primeiro exercício autônomo de direção dentro do grupo e a metodologia usada pelo diretor para que chegássemos a tal ponto me deixou tranqüila, encarando como um exercício de direção e ensinando na prática a pensar teatro. Mais uma informação sobre a montagem é que não deveria ter texto falado.

4) Cada ator/diretor escolheu seus atores e escalonamos os dias de trabalho de cada grupo. A metodologia de montagem era livre, era necessário um acordo antecipado: confiar plenamente no colega diretor, sem questionamentos e críticas, assim poderíamos permitir que sua criatividade não fosse cerceada.

simbolodahpEu não estava em nenhuma cena, mas quis dirigir todo o elenco presente.

Escolhi a invenção “A máquina do silêncio” de Leonardo da Vinci e meu conto ganhou o título de “A procura do silêncio inacabado”, minha encenação posteriormente foi chamada de “Silêncio Reverso”. Era a história de um homem em busca do silêncio tentando reaprender a ouvir o cotidiano. Como eu não poderia usar texto falado fui em busca de imagens na internet que pudessem nortear a poética das cenas, os temas eram: solidão, silêncio, vazio, loucura e aquelas que surgiram do próprio texto. Neste momento minha pesquisa de imagens vinha pela proposta estética das artes plásticas, da cena como apreciação de uma arte visual, como elementos de equilíbrio, velocidades, ritmos, e corpos que expressassem sensações nas cores pretas e brancas. Contextualizar na cena a situação sócio-política do país era pra mim uma necessidade de demonstrar minha indignação através do meu instrumento de luta, o teatro. Ao menos como exercício era uma oportunidade de amadurecer idéias e como atriz/encenadora era um meio de sentir-me capaz de realizar uma composição cênica.

5) Mostramos os resultados para o diretor e cada cena foi ganhando ajustes como parte de um processo de lapidação.


asno-infraero

AS VIAGENS

Ir ao Peru em março para apresentação de Os sonhos de Segismundo em Lima foi meu primeiro contato com a América Latina fora do Brasil. Pisar num solo histórico de lutas políticas e resistências culturais na construção de um povo foi um passo sem volta para a ignorância. Fazemos no Brasil e talvez ainda mais em Salvador, um teatro pouco preocupado com as questões sócio-políticas (com exceções pontuais de grupos que se manifestam neste sentido), não me refiro neste momento a teatro panfletário ou partidário. Mas pensar o teatro como uma forma de interferir ou dialogar no seu contexto político verdadeiramente.

Tivemos muitos contratempos de produção local em Lima e os planos de conhecer Cuzco e Machu Piccho foram abortados, era lá que pretendíamos renovar nosso contato com a divina natureza de nossa origem latino-americana, não foi possível. Ministramos duas oficinas de teatro na Escuela Nacional Superior de Arte Dramático com demonstrações dos treinamentos do Oco Teatro. Era um público jovem e ávido, por diversas vezes senti vontade de ficar ali mesmo em Lima, me procurando, me identificando.

No entanto, ganhamos um belo presente, nos apresentarmos na Casa Yuyachkani e estreitar mais uma vez os laços com este grupo de tanta importância no teatro político latino. Tivemos uma sessão com casa cheia e a dispensa de público enorme que não se pôde acomodar dentro do teatro. O público peruano nos recebeu e nos acolheu de maneira muito generosa, com todos os embates causados pela língua tivemos a total compreensão cênica do espetáculo, as imagens deram ao público seu deleite e a comunhão aconteceu, o encontro foi possível através do teatro.

Em outubro, no Equador, nos encontramos novamente com a América Latina fora do Brasil, com amigos de outros grupos como Yuyachkani e Callejón del Agua , Buendía e com muito orgulho conhecemos Flora Lauten, diretora do Buendía. E considero importante no teatro todos aqueles que nos fazem mudar de alguma forma, que nos religam ao sentido de fazê-lo. Ver uma demonstração de trabalho do Yuyachkani no Teatro Prometeo em Quito foi, para mim, um novo momento de mudança e de crescimento, saí mais apaixonada pelo meu grupo, o Oco Teatro, e com desejo de prosperar sob a condição de muito trabalho e investigação, pois não se procede de outra forma. Ver o teatro de outros países é uma oportunidade de avaliar o seu próprio e reconhecer que, somos no Brasil, muito inventivos e criativos, não precisamos canalizar nossas bússolas criativas ao que está sendo feito lá fora, com referências européias, e não há nesse comentário nenhum ranço de colonizado, há apenas a constatação de que somos matéria prima o suficiente para nossas criações. Igualmente em Guayaquil fomos generosamente recebidos pelo público e acolhidos por uma platéia de aproximadamente 700 pessoas. O suficiente para voltarmos para o Brasil com a sensação de dever cumprido e ainda muita estrada para galgar.

Ser grupo é também levar seu nome por onde quer que estejamos e no que fazemos, às vezes perdemos o sobrenome e ao invés de Diana Ramos passo a ser Diana do Oco, é engraçado e real. Por isso, também neste ano levamos o nome do grupo em outras missões: Dinamarca, São Paulo, Chile, Espanha, Salvador, Lauro de Freitas… e trouxemos conosco também o nome de cada grupo que foi escrevendo algo em nossa história: Malayerba, Albanta, Candelária, Groove Estúdio, Bagaceira, Avante, Ciervo Encantado e muitos outros que se encontraram no II Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia 2009.