Revista Boca de Cena n1. 

As Artes Cênicas ao longo do tempo têm sido referidas e construídas através de modelos de sociabilidade que as tornaram ao mesmo tempo um desafio para os seus realizadores nas sociedades ditas modernas, sobretudo em tempos de relações amorfas, liberalismo econômico, individualismo exarcebado, cultura midiática, espetacularização do cotidiano e modelos de produção globais e globalizantes que fogem do aqui e agora do teatro e da dança; e, por outro lado, têm lançado mão de uma série de estratégias de ação para criar espaços de reflexão sobre o individuo, a cena e a sociedade, sejam iniciativas que criam eventos virtuais ou presenciais, sejam espaços temporais ou físicos, os âmbitos são variados e inusitados. Os modelos de comunicação que sugerem hoje as diversas propostas englobadas nas “artes cênicas” - que abarcam desde instalações das artes visuais até eventos de entretenimento de massa – sofreram mudanças ao longo da histó- ria e é preciso repensá-las dentro destes novos contextos sociais, culturais e econômicos como rito e jogo do encontro com o outro, como ato de afirmação muitas vezes de sua própria autonomia enquanto linguagem e de sua “função” na sociedade contemporânea.

 

O FilteBahia – Festival Latino-americano de Teatro da Bahia por si só já é um desses âmbitos de reflexão, de intercâmbios, de encontro onde as artes cênicas percebem eco para as suas ações e para os modos de produção e crítica contemporâneos. Assim, a criação de uma revista associada ao FilteBahia mais que uma iniciativa que se inscreve nas ações do festival é uma consequência natural da sua existência e desenvolvimento. A revista se apresentou como um inevitável resultado da trajetória do evento que cumpriu 3 anos em 2010 como mais um recurso para a promoção, fomento, difusão e registro dos estudos e da prática sobre as obras cênicas e a sua encenação. Há que se entender que este panorama não pretende ser tão amplo e exaustivo, mas associado a aspectos específicos dos criadores sobretudo ibero-americanos e pensadores importantes e singulares do teatro deste continente como Beatriz Rizk, Eugenio Barba e Miguel Rubio. Com o lançamento do primeiro número da revista Boca de Cena, o Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia pretende dar continuidade ao desenvolvimento de novas formas de pensar e discutir o teatro além das fronteiras da representação, fomentando assim um diálogo frutífero e necessário entre criadores e pensadores/ pesquisadores das artes cênicas. Sendo assim, apresentamos uma publicação seriada com uma periodicidade semestral, na qual publicamos neste primeiro número quatro blocos de artigos e ensaios: critica, trabalho de grupo, interações e dramaturgia. Motivar ao exercício da critica, é uma das características principais desta publicação.

 

Pensar a critica como prática e oficio a partir da teoria e a partir dos diferentes espaços que oferecem as vertentes de investigação e pesquisa teatral. Pensar e desenvolver a critica em função da prática e exercer esta frente aos fenômenos palpáveis e concretos, frente ao leque de acontecimentos teatrais, relações e resultados artísticos. Pensar a critica frente ao atual universo teatral carente dela, nos levou a selecionar artigos que conformam o bloco crítica teatral e são resultado dos encontros do Centro Internacional Itinerante de Critica Teatral em Buenos Aires/2008, uma proposta da Editora Tablas-Alarcos de Cuba, somados a intervenções espalhadas sobre crí- tica teatral que foram acontecendo no Festival Ibero-Americano de Teatro de Cádiz durante os anos 2008, 2009 e 2010. Colocamos também à disposição de estudantes, docentes, grupos e profissionais, material documental sobre grupos de artes cênicas no bloco trabalho de grupo, dando especial atenção nesta primeira edição aos 40 anos do grupo Yuyachkani o qual foi homenageado no III Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia. Enveredando pelos procesos de criação e pesquisa da cena propormos no bloco interações, reflexões de Luiz Marfuz, Jacyan Castilho, Angela Reis e Matias Mvvaldonado, assim como nos entornos da criação da literatura dramática são abordadas duas obras – uma já encenada no próprio FilteBahia, “Flores arrancadas à né- voa” do diretor, pesquisador, ator e dramaturgo argentino-equatoriano Aristides Vargas, numa montagem de Albanta Teatro de Cádiz, Espanha - e outra, um processo de criação, denominado de texto em processo, , “O Farol de Alexandria” , do dramaturgo, pesquisador e diretor teatral baiano Paulo Atto -.

 

Este bloco é encabeçado por uma acertada e não menos urgente analise que Cleise Mendes faz denominada de Dramaturgia Brasileira na Bahia. Acreditamos que esta revista transitará por dois caminhos que urgem no nosso fazer diário: aquele que envolve o diálogo, a discussão e o debate e o caminho do registro historiográfico de processos de trabalho e pesquisa teatral, exercícios que no fazer e desfazer do nosso tecido efêmero tem se perdido e ganho a condição de irrecuperáveis. Como prova da nossa alegria pelo encontro marcado e o trabalho realizado convidamos a todos a esta bela edição que nas suas mãos sabemos será um material muito útil e valioso, pois sem vocês, leitores e espectadores, não temos como cumprir o nosso mais prezado ritual. Sejam todos bem vindos à “Boca de Cena”!

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