Entrevista com Luis Alonso sobre o espetáculo "Fronteiras"/ por Doris Veiga Pinheiro. 

PROCESSO DE CRIAÇÃO

O processo de criação de Fronteiras, tem sido um percurso de re-significações, improvisos, acordar lembranças guardadas e empoeiradas pelo tempo e o duro oficio de subsistir em outras terras. Mas também tem sido um espaço de rico intercâmbio com dois atores talentosos, de trajetória internacional, Rafael Magalhães e Lúcio Tranchesi. Revisitar metodologias do trabalho do ator, voltar a Stanislvaski, este trabalho tem sido desafiador pois é cheio de particularidades e minucias, de pequenos detalhes.

TEXTO

o dramaturgo argentino, Santiago Serrano é um homem de grande perspicácia e insensatez (rs). É um escritor que produz textos de infinitas leituras e leva a gente a andar por um monte de becos da vida e da alma. O texto transita um pouco pelo absurdo, na verdade acaba se instaurando uma espécie de absurdo pois estes seres estão querendo atravessar uma fronteira e não tem ninguém para recebé-los, no entanto eles aguardam. O lógico é que, nas circunstâncias atuais do mundo, senão tiver ninguém nem obstáculo algum em uma fronteira, vc atravessa e pronto. No entanto esta fronteira não se reduz à questão física terrestre, ela é ampla, muito ampla. 

 

CINEMA/ABSURDO
Suspender o sentimento e voltar a colocar ele no lugar das novas formas de representação. Há inspiração em uma aura cinematográfica, onde cada vez que fazemos menos em cena, onde cada vez que estruturamos cadeia de ações lógicas, construímos un tecido sólido para colocar o grande absurdo que é a vida mais do que o grande absurdo como gênero teatral.

Duas pessoas confinadas à espera, ao nada, tentando atravessar uma fronteira de diversos significados.

QUAIS SÃO AS SUAS FRONTEIRAS?
Eu particularmente teve de atravessar muitas fronteiras na minha vida, elas me ensinaram a quebrar a dura sensação de emigrante, a dura sensação de abandono de aquilo que não podes ou não queres viver mais e acabou se instaurando na minha vida um não-lugar permeado pelo não pertencimento, é duro, mas é belo, pois você se despoja de pertences materiais e espirituais. . No entanto há um pacote, uma mala que nunca te abandona, a das lembranças. Elas trabalham num terreno do subconsciente e ajudam a agir no presente e a lidar com as ausências!

 

EQUIPE ARTÍSTICA.
Trabalhar com profissionais de excelência como Zuarte Jr no cenário, descobrimos juntos a limpeza doa objetos e o desempoeiramento das formas, uma luminária não é mais do que isso, uma luminária, aquela que não tem memória, que não tem lugar. Esse é o mais claro exemplo da concepção proposta nesta parte da criação.


Hamilton Lima veio pra fazer o figurino e o sentido do cinema está muito presente, como um espaço também de despersonificação, é muito difícil chegar a este conceito, pois de qualquer maneira tudo o que é colocado em cena gera significados e o público e nós temos a maldita herança reducionista de ter de fechar entendimentos, sejam eles lógicos-cronológicos ou dispersos, fragmentados. Mas também tem sido um processo belo de estruturação da cena.

Haverá elementos mais desafiadores, que não conseguimos enxergar a priori, somente quando estamos com todo o material de cena em "ação". Aí se inclui a parte da multimídia. Maise Xavier, com sua já longa experiência em vídeo e cinema, estrutura formas mais explosivas, penso que serão dentro do espetáculo, o recurso mais direto, de discurso mais concreto, no entanto também joga muito com esse pensar o ser humano como um objeto medido, testado, pesado, avaliado, julgado... essa é um dos desafios desta ferramenta em Fronteiras.

 

Há uma integração entre cenário, iluminação e sonoridade dentro do espetáculo, uma espécie de funcionalidade que eu persigo muito nos meus processos. O entendimento disto passa não somente pelo cenógrafo e equipe técnico-artística, mas também por um grande conhecedor e apoiador do teatro na cidade de Salvador, alguém que faz "milagres" com essas gambiarras que só diretores de teatro ficamos inventando tempo todo, esse cara que colabora conosco com sua experiência é o Marcos Marmund a quem temos muito que agradecer, 

Outro grande profissional que nos apoia é Mario Edson Oliveira, um fotógrafo de reconhecida trajetória, com um olhar certeiro e uma capacidade de captar sensações das quais todos nos surpreendemos. Ele nos acompanha desde O Galo e seu trabalho é de uma autêntica aproximação não somente estética, mas também ética, de compromisso e respeito com o outro. 

Mas tudo isto não seria possível sem aquela pessoa que me ajuda a tecer estas estruturas no dia a dia, na discussão constante que é a assistente de direção Andrea Mota. Ela é atriz fundadora do Oco Teatro e já conhece profundamente meu estilo de trabalho e as minhas discrepâncias com o palco, minha constante luta com a rigidez da cena e suas imposições. Ela tem sido um apoio total, sincero e leal neste percurso!

Agora só falta começar a fechar todas as estruturas e trabalhar para a estreia. Ai entra a Doris Veiga Pinheiro, essa profissional do jornalismo onde cutuca as nossas estruturas e começamos a enxergar que tudo ainda não está pronto, que sempre há de se repensar pois a finalidade do nosso trabalho é para o público, além da nossa autossatisfação criativa, é para eles que nós trabalhamos, e esse discurso é objetivado através de uma divulgação séria e consistente, de respeito às artes cênicas em específico. Pois somos um segmento, que nos custa muito trabalho de expandir em meios de comunicação e Doris contribui imensamente para este trabalho com profundo conhecimento.

Todo este processo me faz pensar cada vez mais que por muito que o Teatro friccione a linha ténue que o "separa" da Vida, ele terá de manter, ainda que em perpétua mudança, ferramentas que o separem da percepção cotidiana, e lhe permitam continuar sendo através da recepção, uma obra de Arte para contemplar e pensar a nossa existência.

Luis Alonso / Diretor Teatral

Doris Veiga Pinheiro / Jornalista

a audeproduções