A Sagarana do Teatro Baiano na retrospectiva adúltera na Revista Muito

May 1, 2013

Hoje, como sempre nas nuvens, recebo uma ligação de um amigo me falando sobre a última publicação da Revista Muito do 22 de dezembro do presente ano 2013, onde aparece uma espécie de retrospectiva do teatro baiano nesse ano.  Eu tinha o jornal, mas com a preguiça que a tecnologia nos traz tenho acumulado muitos deles em prateleiras, acredito que algo assim como jornal-fobia, tem me atacado nos últimos tempos. Mas desta vez quis curiosamente tomar conhecimento daquela informação que tanta curiosidade despertou no meu interlocutor. Queria saber a novíssima dos novíssimos questionadores do teatro baiano. 

 

Enquanto ia lendo ia ficando a cada passo lastimado e ao mesmo tempo pasmo com a publicação. Não conseguindo compreender como o fato tinha acontecido num jornal para mim tão sério e respeitoso. Vi plasmado nas páginas 32 e 33 da Revista Muito a opinião de duas pessoas, salvando as suas reputações como intelectuais do oficio, oferecendo a sua colaboração com opiniões muito particulares, aliás, totalmente particulares olhadas somente a partir do seu próprio universo, do que é a política cultural na Bahia e o teatro baiano em 2013. Mas a minha curiosidade crescia a cada segundo pelo fato de estas duas pessoas não estarem em contato direto com a produção baiana,. Por um lado Deolinda Vilhena, não responde ao chamado de tudo o que está em cartaz e não produz teatro na Bahia, e o outro, Celso Junior, não mora em Salvador, pois trabalha na Universidade de Sergipe, tirando, é lógico total credibilidade às opiniões de ambos.  No entanto sempre é curioso ler o que nestes casos acontece para saber as opiniões de colocações tão adúlteras

 

Deolinda Vilhena acerta em algum que outro ponto, sobretudo quando se refere à política de editais, da qual eu sou totalmente contra, mas a ausência de conhecimentos do teatro baiano a faz esbarrar em alguns questionamentos. Digamos que a experiência dela com o Teatro do Soleil tenha feito nadar na fantasia de um público que subvencione o teatro, aliás, para conhecimento de todos o Teatro do Soleil tem subvenção do governo da Franca.

Os problemas da sociedade soteropolitana são os problemas do teatro; a má educação, os serviços precários, uma cultura do dar aqui e acolá de qualquer maneira sem  se importar na qualidade e conteúdos que são oferecidos-recebidos, uma sociedade que vive em espasmos e convulsões dos seus próprios feitios, como pensar então num “verdadeiro mecenas do teatro - o público-“ se esse público não está preparado pelas suas próprias carências a bancar o nosso teatro? Um público de cultura de shooping e cerveja? Então não é para esquecermos o percurso histórico do qual quem opina é fruto, um percurso histórico que parafraseando Darcy Ribeiro tem como classe detentora do poder pessoas que enriqueceram através da exploração econômica e em outros casos de heranças capitaneadas por seres de procedência duvidosa, sem o menor apego às questões da arte e da cultura, aliás dois significados que podem ser totalmente distantes. O único mecenas com o qual podemos contar neste estado e no Brasil para poder desenvolver pesquisas sérias e consistentes e realizar montagens -(no caso do teatro) que é o nosso ofício- é o Governo e suas respectivas circunscrições, pois um governo não pode estar isento do seu percurso histórico para poder atuar de forma justa e transformadora. Deolinda Vilhena, no seu curto mas  escamoso depoimento, deixa entrever o emplacar de um pensamento errôneo sobre os processos artísticos, cifrando a urgência da presença de resultados teatrais que sejam satisfatórios, chamando o trabalho experimental de experimentalismo (tenhamos claro que o sufixo -ismo pode conotar pejorativamente um substantivo distintivo de um aspecto social ou de espaço determinado do pensamento humano), almejando não sabemos qual “tipo de teatro” em detrimento da procura de novas formas, apostando pela sagacidade de que qualquer criador tem de acertar no alvo, como se todo criador tivesse a obrigação de ter uma fórmula para almejar o sucesso o qual vai lhe prover de dinheiro para subvenção, alem de com seu discurso tira do criador a sua capacidade nata, o risco na procura de novidade. E não me venha com isso de que tudo foi inventado, isso fica pros pobres de espírito e aqueles que se acomodam a fórmulas pré-estabelecidas.

 

Sobre o discurso de Celso Junior na Revista Muito poderia dizer que faz resumos que partem de um gosto próprio deixando entrever certa ausência de profundidade nas suas colocações, se deixando guiar por uma identificação própria que o faz esbarrar no grande erro de quem decide praticar a critica teatral ou desenvolver este tipo de opinião colocando seus gostos e interesses pessoais por cima de uma apreciação séria e contundente.


Sobre Eduarda Uzeda, a quem não me referi desde o início, todo o meu respeito, ela tem servido de muito com suas produções no jornal A Tarde para que o teatro, pelo menos, tivesse o sonho, de que alguém estava lhe espiando –de forma bem voyeurista- na procura de uma renovação.

 

Venho aqui cifrar de maneira nada conclusiva que o teatro baiano continua se procurando a si mesmo, num marasmo de confusões nas políticas culturais e no meio de uma ausência de formação tanto para produzir quanto para criticar a arte. Aliás, como poderíamos acreditar que alguém tem a verdade absoluta em se tratando de arte? Claro está, quando esta é verdadeiramente uma obra de arte.

 

Sagarana, é uma das palavras (neologismos) que Guimarães Rosa criou nos seus afanados feitios lingüísticos com muito sucesso. A nossa saga ou canto heróico em louvor a nós mesmos é um ato, no mínimo, de dignidade e mostra que ainda com todos os problemas e discussões sobre políticas culturais continuamos criando, produzindo e crescendo. Tal vez à diferença do louvado escritor os dois academicistas não escutem o nosso canto e dêem continuidade ao seu preguiçoso ofício de andar em cadeiras -sobre rodas-.

 

Ah! E como disse meu colaborador e ator Caio Rodrigo, falar de resistência no teatro é pleonasmo!

 

Boas Festas!

 

Luis Alonso.

24.12.2013

 

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