O problema de "a gaivota" de Deda e Flores é se chamar A Gaivota.

April 29, 2014

Breve introdução.

(A imagem deste post é do espetáculo russo ao qual me refiro a seguir).

Assisti A Gaivota em janeiro de 2013 em Moscou, pela Companhia Satiricon sob a direção de importante diretor russo Iury Butusov, no teatro Satiricon, Elenco e Diretor, formados pelo Teatro de Arte de Moscou (TAM), por discípulos do mestre Stanislavski. Pensemos num pais que cultiva a arte teatral como parte das suas necessidades primarias e ser discípulo de discípulos de um mestre é herdar mais do que a sua estética ou método, é herdar a sua ética para com a arte, de fato a Rússia sempre foi um pais com uma hibridez cultural que transita entre o oriente e o ocidente. Aquela -A Gaivota- que assisti como verdadeira comédia, me deixou um sabor de 4 horas de prazer eterno com 3 intervalos de ansiedade, pois foi uma perfeita combinação de tradição com contemporaneidade, uma daquelas aulas que jamais será esquecida, pois reafirmou a importância de uma clássica obra de arte, de elite, onde a elite espalhou-se no vulgo e deu à sociedade o alcance ao valor de uma obra de arte, não como na Bahia, onde no meio da desordem e da necessidade de nivelar tudo por baixo, o público sempre fica em pé, grita, lota teatros e nem sabemos por que... Este é um dos casos de “a gaivota” de Deda e Flores.

 

O problema de "a gaivota" de Deda e Flores é se chamar A Gaivota.

Depoimento de um simples espectador.

Isto não é uma critica. É um depoimento a partir dos valores que para mim tem uma obra de arte. E gostei de compartilhar.

 

 Último dia de apresentação. Teatro lotado que, segundo informações recolhidas, se manteve assim durante toda a temporada. Coisa boa!

 

Você entra e é recebido com um forró. Primeira pergunta: Será A Gaivota em tempo de São João? ... De cara posso dizer que já gostei, atreveria arriscar que sonhei por breves instantes com a surpresa imbatível de um espetáculo comovente, trágico, como tem sido lido na nossa cultura ocidental, também pensei em uma comédia em quatro atos, algo bem plausível para a cultura russa. De momento, nos primeiros instantes antes de começar pensei que Nina se chamaria Maria ou Kostia, João. Sonhei por breves instantes que Irina seria Joana, Fernanda, Ana, que a história ia ser encima daquele tablado minúsculo e que pela primeira vez o risco acompanharia uma produção daquelas aqui em Salvador. Pensei também naquele “Teatrão” como é chamado hoje de forma pejorativa ao método de encenação que herdamos do teatro burguês e que ainda mantemos até os dias de hoje por força da própria sociedade e de criadores imbuídos na necessidade de permanecer a risca num degrau imaginário, quase que um Parthenon de atores, ainda assim achei que era um espetáculo daqueles que a gente disse: teatrão, mas muito bem feito, que coisa boa! Sobretudo por ter a direção compartilhada por um dos atores mais talentosos e respeitados do teatro brasileiro, Harildo Deda.

 

Mas não. Errei. “a gaivota” sob a direção de Deda e Flores não é mais do que um arremedo de confusões que dentre tantas coisas discute valores da arte, e que esbarra no próprio ato falho do criador que por momentos e de forma bem superficial se pretende questionar. A “a gaivota” se apresenta de forma des-harmônica em contraponto à harmonia da personagem central (tudo o contrario do original tchekoviano). Aliás conseguimos entender mais ao Kostia do que a própria “a gaivota”

 

Não conseguimos distinguir de maneira alguma o que aquele espetáculo quer nos transmitir. Poderíamos dizer que o diretor e a equipe de criação se propus tal efeito numa época de fragmentações, onde em se tratando de arte “nada tem a ver com nada e tudo tem a ver com tudo”, leitura errada de muitos da nossa contemporaneidade. Mas se for esta a intenção, transitou de um efeito para um defeito, deixando o sabor de risco e vontade de quebrar com tudo, sem saber como nem de quê forma.

 

Na primeira cena vemos a atriz entrar com um Ipod, celular ou qualquer objeto eletrônico com fones de ouvido escutando acredito que música. Aí veio o primeiro sinal: São personagens contemporâneos, de agora, de hoje, mas russos, pelo menos por alguns detalhes do figurino em geral e pelos nomes deles, que são apresentados assim nos primeiros diálogos. OK até aí tudo bem. Mas um pouco mais a frente sinto que um ator arrisca um sambinha, por outro lado em outra cena entram acordes de Doces Bárbaros... Me supreendo, mas não estão na Rússia!, não estão em lugar algum...! tudo bem, aquilo que chamamos de atemporal, só que neste caso se esqueceu que até o atemporal numa obra de arte tem de ter Coerência, Unidade e Harmonia, isso é indispensável. Algo do qual “a gaivota” carece.

 

Os textos (falados), neste espetáculo, mais do que desconstruir e reconstruir, destroem e aniquilam o texto original de Tchekov, fazendo cortes e inserções desnecessárias que beiram um gosto duvidoso, citando atores já mortos com os quais alguém contracenou, etc. Não conseguindo entendermos nada. Nos deixando um sabor de montagem por montagem, sem nada estético a apreciar, nem questões técnicas a elogiar, sem temas profundos a discutir.

 

Continuando a dividir a peça em pedaços para analisar ela -como se não tivesse a obrigação de ter uma Unidade- chamou a minha atenção o trabalho de quatro atores os quais ficam numa linha tênue e deliciosa de ser apreciada, Viviane Laerte, Analu Tavares e Celso Junior, que neste último, apesar de usar registros já repetidos como ator, mostra um trabalho excelente, aprimorado e verdadeiro, como os atores que Stanislavski falava, autênticos. O quarto ator merece um aparte, é o próprio diretor, que no seu primordial e único-grande ofício, sempre nos deslumbra ainda com pequenas entradas e curtíssima intervenções, pontinhas como diríamos aqui, de Harildo Deda.

 

O final de "a gaivota" é o mais impactante. Após o texto de Celso Junior, que aliás me comoveu sinceramente ao anunciar a morte de Kostia, entra de maneira sutil a canção Vapor Barato dando seguimento à mistura sem sentido aqui questionada, mas gerando o efeito provocado pelos primeiros acordes, nos deixando porém de cabelo em pé, escurece a iluminação até deixar num Black geral, tocam fogo na lixeira de Kostia e um fogo real acende na cena em plena escuridão. A Gaivota fica iluminada com um realce por baixo. Eu posso disser que sentí uma profunda emoção, mas o que gerou essa emocionou não foi o resultado de 2 horas e 30 minutos assistindo um espetáculo, foi o truque aparentando uma novela de horário nobre na TV onde você necessariamente tem de soluçar. No entanto o efeitismo final do espetáculo não fez com que um espectador como eu esquecesse das torturantes horas de “a gaivota”.

 

Considero que se pelo menos o espetáculo que assisti domingo passado, no Teatro Martim Gonçalves, tivesse outro nome, algo lógico e razoável na hora de adaptar e fazer grandes mudanças num original como este de Tchekov, talvez a sensação de ter dado errado teria sido menor. No entanto volto e repito que o maior erro de “a gaivota” de Deda, Flores e os Argonautas é se chamar A Gaivota.

 

Luis Alonso

 

 

Please reload

Featured Posts

Cultura em Salvador. Entre Politicas de Estado e Eventos-Shows da Prefeitura

May 14, 2014

1/3
Please reload

Recent Posts

September 17, 2014

Please reload

Pesquisa por Tags
Please reload

a audeproduções