Eu sou os que foram

Ontem assisti a dois excelentes espetáculos trazidos a Salvador pelo FILTE Ba : Morro como um País e Triptico. Em seguida, estilo “maratona”: 19hs na Barroquinha e 21hs no Vila. O primeiro, da Companhia Kiwi de Teatro (SP), direção de Fernando Kinas, apresenta uma série de cenas que visitam a ditadura em seus inúmeros prismas. Texto complexo, metafórico, possibilitando inúmeras reflexões através da excelente atuação de Fernanda Azevedo. Uma curva de atuação com um toque de ironia constante, variando da fúria ao humor ácido. Cenário simples e essencial. A sensação final é de uma cumplicidade na dor... silenciosa... O segundo, um drama construído a partir dos textos finais de Samuel Beckett dirigido por Roberto Alvin, interpretado por Paula Spinelli, Juliana Galdino e Nathalia Timberg. São três aspectos da vida de uma mesma mulher: a infância, a adultez e a ancianidade, culminando no afundamento do corpo desta última numa poltrona, concluindo que, depois de tanto esforço, quase nada valeu. Um imenso esqueleto metálico torna atemporal o que é apresentado e o show de interpretação abre uma espiral na qual é fácil perder as defesas do pensamento. De repente, somos aquilo. Estamos lá. Mas o que mais me chamou a atenção foi a platéia: vazia no primeiro e entupida no segundo. Certo. A fabulosa Nathalia é um monstro do teatro, uma referência. Quem não gostaria de vê-la atuar? Mas por que o esvaziamento do primeiro? A Barroquinha não é mais um problema. Tem estacionamento tanto dentro quanto fora na Praça Castro Alves, acomodações excelentes, banheiros limpos, a parte técnica funciona perfeitamente (diferente do Vila que colocou os técnicos de som e luz em maus lençóis)... Os temas de ambos refletiam a vivência de estados humanos: a submissão/construção da ditadura nossa de cada dia e a falência dos nossos esforços para construir a vida. Penso em vícios Globais, penso em “estilo que se usa fui ver Nathalia Timberg (não entendi nada, detesto teatro, mas é detalhe...)”, penso em atrofias mentais, penso na rima bairrismo e nadismo, penso que já me aposentei como educadora portanto “sei de nada inocente”, penso. E o que mais me assusta quando penso é que concordo com Fernanda: EU SOU OS QUE FORAM.

Hilda Nascimento

Salvador, 17 de setembro de 2014

Fernada Azevedo em "Morro como um pais"

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